Especialista em Design de Templos

No inicio da Construção da Igreja Matriz da Paróquia São Pedro Fourier, pensamos em algumas coisas que julguei importantes, uma delas foi a acústica, os profissionais que chamei ficaram assustados, diziam eles que sempre na Igreja Católica só eram chamados quando já estava tudo pronto, mas nada funcionava direito, as coisas para Deus tem que ser as melhores, daí a necessidade de se preparar antes.

Hoje como Design de Interiores, especializado em Construção de Igrejas quero refletir com você querido leitor sobre algumas coisas que devem ser feitas antes de se pensar em reformar ou construir uma Igreja.

Começaremos nos perguntando: Mas que Igreja? Quando? Onde? Como?

Um professor de filosofia dizia que nos anos 80 a Igreja tinha feito um pacto com a feiura, dizia ele que durante certa época só se sabia colocar “samambaias” no presbitério; somos pessoas diferentes, em lugares diferentes, com culturas diferentes; o mau humor de uns pode acabar num belo lugar, para outros não! Mas será que um prédio, uma peça, uma imagem ou escultura pode nos emocionar de verdade, ou falar algo conosco? 

Aliás, porque será que os banheiros dos shoppings estão sempre limpos e cheirosos e os de nossas Igrejas, muitas vezes, não dá sequer para entrar? 

Hoje as Igrejas devem ser limpas, disciplinadas e econômicas; a função de um avião é voar e a de uma Igreja é entrar e ter vontade de rezar; todavia ela deve também proteger contra o calor, contra o frio, a chuva, ela deve receber luz natural, ventilação, etc. 

Talvez precisamos ter “no nosso quarto o que os monges têm em suas celas e pronto” dizia Le Corbusier (Arquiteto Renomado); mas além de bela, a Igreja precisa ser funcional; ela deve nos abrigar e falar conosco sobre aquilo que é importante e do qual realmente precisamos ser lembrados: o design e a arquitetura nos falam sobre o tipo de vida que devemos desenvolver. 

O que você deseja que sua Igreja diga a você e aos seus irmãos? 

Podemos até combinar pedra, aço, concreto, madeira e vidro, porém nossa Igreja não é um museu e nem uma boate, existe um espaço litúrgico que se for respeitado ajudará bastante; normalmente pensamos num presbitério que caiba o padre, alguns coroinhas e ministros, mas, e quando há casamentos, missas festivas, solenidades? Aliás, no Natal onde você irá montar seu presépio? Necessariamente não precisa ser num lugar improvisado ou sempre no mesmo lugar.

Hoje conseguimos ter paz em nosso quarto de dormir? E em nossas Igrejas? Com tanto barulho interno e externo...

Algumas Igrejas tentam ajudar os fiéis a rezar sozinhos, às vezes com o silêncio, com um CD de canto gregoriano, com textos bíblicos recitados, etc.

A construção precisa hoje produzir ideias e sentimentos específicos. Podemos sim nos aproximar mais ou menos de Deus através daquilo que está representado nas paredes ou tetos. 

Por exemplo: nos rituais da Igreja Católica o uso do incenso é um símbolo de oração, que é usado desde a Antiguidade com sentido de purificação e proteção, mas os fiéis sabem disto?

Não perdemos a sensibilidade ou a lembrança, embora alguns consigam rezar apenas com um coral, outros preferem uma bela banda com muitas vozes e instrumentos, isto é normal, porque somos diferentes. 

Mas uma coisa puxa a outra, os romanos herdaram tantos traços arquitetônicos dos gregos, o que vivemos hoje tem uma história, começou em algum lugar ou foi influenciado por algo.

Um Teólogo Latino Americano dizia que as Catedrais de hoje são os grandes shoppings, com suas construções fenomenais e torres de causar espanto. Em algumas cidades ainda vemos a Igreja no centro com sua bela torre; afinal a cidade era construída em volta dela.

Na Idade Média a Catedral era a casa de Deus, e hoje? Quando alguém que não vai à missa entra, talvez por curiosidade, na sua Igreja pensa: estou na casa de quem? O Belo e o Bom podem ajudar, pois muitos ainda podem compreender o Senhor através do belo, aliás, foi Ele quem criou todas as coisas.

Há algumas décadas poucos sabiam ler e por isso as Igrejas eram todas pintadas e esculpidas: era a melhor forma de catequizar; hoje muitos têm preguiça de ler. Como vamos trazer a mensagem de justiça, paz, humildade, fidelidade, prosperidade e moderação nas Igrejas onde frequentamos nos dias de hoje?

Brasília quis criar uma nova realidade, assinalada pela modernidade, mas é reconhecida não só pela modernidade, como também pela pobreza ao seu redor e a corrupção que alguns continuam fazendo, o que não é muito diferente do que ocorre nos nossos bairros.

No nosso prédio, que inclui secretaria, salas de catequese, de reunião, sacristia, Capela do Santíssimo, nave central, adro, livraria, etc; devemos expressar muitas coisas, porém não podemos valorizar a segurança sem lembrar que existe o perigo, estes ambientes devem ser seguros e não expressar falsidade ou a mentira. Seria quase um crime colocar flores de plástico, pias de materiais falsos ou que imitam algo, ou até mesmo vasilhas velhas e mal conservadas no lugar dos vasos sagrados; é verdade que as âmbulas podem ser simples, porém devem ser dignas do mistério ali celebrado. 

Uma Igreja elegante é movida por uma simplicidade conquistada a “duras penas” e por muitas pessoas que passaram por ali e deixaram além de seu dizimo e sua oferta, sua vida, seu amor, sua dedicação...

O Renomado Arquiteto Oscar Niemeyer já dizia que suas obras são inspiradas nas praias brancas, nas curvas das enormes montanhas e nas belas mulheres brasileiras. E a sua Igreja é inspirada em que ou em quem? A vida do seu(sua) Padroeiro(a) pode ajudar e muito. 

Muito cuidado, pois o mundo esta doente. 

Uma cadeira não basta para dar sustento e conforto, deve dar a sensação de que nossas costas estão protegidas. 

Às vezes um concreto bruto fala mais do que uma parede mal pintada.

Sem contar que muita coisa tem que passar pela prefeitura e órgãos competentes, uma rampa de acesso no lugar de uma escada pode parecer desnecessária na construção, mas será uma grande alegria para um cadeirante. 

Hoje podemos ainda respeitar dentro de uma construção uma árvore? Uma toca? Um ninho? Quando estávamos construindo a Igreja de São Pedro Fourier na Diocese de Campo Limpo – São Paulo - SP, precisávamos replantar uma árvore que se enroscava nos fios de alta tensão, um pedreiro me perguntou como iríamos fazer, pois ali havia um ninho de andorinha. O serviço atrasou, mas esperamos os filhotes nascerem, terem as primeiras alimentações dadas carinhosamente pela mãe e só depois de voarem é que replantamos a árvore, que por sua vez está ainda viva e dá flor todo ano. Pode até parecer muito romântico, mas o que os pedreiros aprenderam com aquela ave, o que as crianças da catequese viram e os detalhes de cada dia, como, por exemplo, ver sem perturbar e saber esperar, para um padre ansioso como eu, não tem preço.

As Pirâmides do Egito fazem sucesso até hoje, assim como o Pártenon e o Coliseu. Do mesmo modo, algumas Capelas, Igrejas, Santuários e Basílicas pelo mundo afora, fazem igualmente sucesso, pois o advento do Cristianismo mudou a história da Arte no mundo. Até hoje Jesus é visto no mundo todo em imagens, representado como Rei e como Servo Sofredor, com uma coroa de espinhos e sentado num Trono Glorioso (Pantocrator); os arcos da Basílica de São Pedro dão a ideia de sermos abraçados pela Santa Madre Igreja, mas a fachada da Basílica ainda nos remete a um templo grego. A história é cíclica.

Consta que Michelangelo terminou a Pietá com 23 anos de idade; em 1974 um maluco quebrou-lhe a mão e o nariz da imagem de Maria com uma picareta de alpinista, na época, o Papa Paulo VI enfartou, chorou de tristeza aos pés da imagem e mandou restaurá-la, pois era, e é, uma grandíssima obra que expressa um determinado fato importante da história cristã. Quem olha entende o mistério e se surpreende com a perfeição, viaja nos detalhes, mesmo que não seja um cristão praticante ou mesmo que prefira a arte sacra bizantina.

Talvez a grande dificuldade que temos nos dias de hoje é imaginar que o padre, a freira, o engenheiro, o arquiteto, ou o coordenador de comunidade sabem de tudo. Precisamos reaprender a perguntar, a ler, a nos informar. Não dá pra fazer uma votação na Missa sobre “de que cor vamos pintar a parede externa da Igreja”. Consultar um profissional custa um minuto e pode incluir materiais que evitarão a infiltração, por exemplo; pois o desenho, o ícone ou a pintura que você fará numa parede do presbitério deverá durar para a vida toda, é uma obra de arte! Não adianta pagar barato e ter um serviço de péssima qualidade, sem nenhuma noção de perspectiva.

Quando cheguei aqui na Paróquia, no projeto de construção havia um banheiro dentro do presbitério, imagine o som que faria uma descarga enquanto um fiel estaria adorando a Jesus no Santíssimo Sacramento! A secretaria era aberta, lugar fácil para ação de ladrões que hoje em dia não perdoam nem as Igrejas. São Pedro Fourier tinha no século XVII num altar lateral um local chamado “Mesa da Caridade”, resolvi incluir uma aqui onde os alimentos são trazidos pelos fiéis e distribuídos pelo belo trabalho feito pelos Vicentinos. 

Se for necessário mude, mas antes não tenha medo de consultar, de pesquisar, até de ousar, pense nas pessoas que estarão passando por ali de férias, que nunca vão a Igreja, o que elas poderão sentir quando entrarem nela. Pense nos que estarão ali todos os domingos, como irão se acomodar, pense numa Igreja cheia de pessoas e, noutros dias, nela vazia, mas nunca se esqueça de estar atento a pequenos detalhes: melhor uma peça super pesada de granito, ainda que cara, mas que durará a vida toda, do que uma falsa, uma imitação que pode ser jogada no chão, roubada ou desprezada por mostrar aquilo que não é. 

Lembre-se bem, um Ministro Extraordinário da Comunhão Eucarística sabe mais o que se guarda e como deve ser um armário de sacristia do que um padre, ou um engenheiro; infelizmente muitos arquitetos ou mestres de obras não sabem o que é uma Capela do Santíssimo e o que se guarda ali, e mesmo isto deve ser aproveitado, pois é uma ótima oportunidade para saberem, conhecerem e se apaixonarem a ponto de nunca mais perderem a oportunidade de proclamarem “Graças e louvores se deem a todo momento ao Santíssimo e Diviníssimo Sacramento”.

Com 12 anos estudei para ser Ajustador Mecânico, depois fui fazer Contabilidade, trabalhava durante o dia e estudava a noite, sou Licenciado em Filosofia, Bacharel em Teologia, sou Design de Interiores e ainda tenho muita vontade aprender, sempre.

Fonte: Pe. Elcio Barros

Site: www.elciobarros.com 

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